segunda-feira, 1 de março de 2010

Os gregos que se arruínem (Expresso)

Menos de um ano antes de o euro se tornar a moeda de 11 países europeus em Janeiro de 1999, uma declaração assinada por 155 economistas de expressão alemã apelava a um adiamento "ordenado", ou seja, prolongado. Os potenciais membros do euro, referiam eles, ainda não tinham reduzido a sua dívida nem os défices de uma forma adequada a uma união monetária viável, estando mesmo alguns a fazer uso de uma "contabilidade criativa" para atingir os níveis exigidos, e uma atitude despreocupada perante os défices iria enfraquecer a confiança na estabilidade do euro.

Agora a previsão está a tornar-se realidade, observa Wim Kösters, da Universidade do Ruhr, em Bochum, um dos signatários originais. A Grécia, que aderiu ao euro dois anos após a sua introdução, escondeu o estado manhoso em que se encontravam as suas finanças e agora está a ser atacada pelos especuladores. Um caso de incumprimento pode alargar o pânico a outras economias atormentadas pelo défice, incluindo a portuguesa e a espanhola, com consequências assustadoras para o já instável sistema bancário europeu. Mas no caso de os parceiros da Grécia lhe pagarem a fiança, ignorando o tratado de fundação do euro, a moeda irá sofrer. De uma maneira ou de outra, o euro está em apuros.

Este dilema sente-se com especial ansiedade na Alemanha. Foi violenta a separação do marco alemão, símbolo da recuperação pós-guerra e do êxito económico. Na véspera da união monetária, 55% dos alemães opunham-se à sua adesão, posicionando a sua nação no lugar dos fundadores mais relutantes da zona euro. Quando se fala de um "salvamento", todos os olhos se fixam na Alemanha, a maior economia europeia e o mutuário mais digno de crédito. Os alemães receiam que um salvamento da Grécia venha, de facto, a alargar o seu estado-providência ao Mediterrâneo.

As angústias da Grécia colocam Angela Merkel, a chancelerina, numa posição incómoda. Os contribuintes alemães não estão com disposição para salvar o que consideram ser gregos desregrados, uma vez que já penhoraram ¤500 mil milhões ($682 mil milhões) para reforçar os seus próprios bancos e muitos mais para empresas. O Partido Democrático Liberal (FDP), o parceiro júnior do seu governo de coligação, é contra um salvamento, à semelhança de muitos políticos do seu próprio partido, e o caminho para sair da crise não é claro. As obrigações gregas continuam sob pressão (ver tabela). Sucedem-se argumentos enfurecidos sobre qual a reacção em cadeia que seria mais prejudicial: fianças em série ou incumprimentos em série. Um parecer jurídico dos peritos do Bundestag argumenta que a ajuda à Grécia pode ser permitida ao abrigo dos tratados europeus se a crise puder ser atribuída a forças exteriores, como por exemplo especuladores ou a recessão global. Alguns economistas (principalmente não-alemães) consideram que a Alemanha pode contribuir para uma solução a um prazo mais longo através do estímulo ao consumo interno, o que ajudaria os infames mediterrânicos a resolver os seus problemas. Fala-se de "governo económico" mais coordenado dentro da zona euro.

O senhor Kösters é mais céptico. "Ninguém sabe o que é governo económico", refere. O mercado único e a moeda única europeia colocaram os países em concorrência uns com os outros tendo como base as suas economias e as suas instituições. A Alemanha enfrentou o desafio. Agora, comenta o senhor Kösters, é a vez da Grécia e dos outros fazerem o mesmo.

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