segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Novos perigos para a economia mundial

Situação internacional Quando começou a crise, os governos contribuíram para salvar a economia global. Agora são eles o problema. (Notícia do Jornal Expresso)


o ano passado eram os bancos; este ano são os países. A crise económica, que parecia ter abrandado no final de 2009, parece estar de novo em plena actividade, à medida que surge a ameaça de não cumprimento das obrigações da dívida soberana.

Os líderes europeus tentam a todo o custo evitar o maior desastre financeiro da história de 11 anos do euro. Esta semana todas as atenções estão concentradas na Grécia que, a haver incumprimento, será o primeiro caso entre os membro da União Europeia (UE). À hora de ida para o prelo de "The Economist", os líderes da UE encontravam-se reunidos para decidir o que fazer. Falava-se de um plano de emergência liderado pelos alemães que, no caso de ir para a frente, poderá também abranger outros candidatos europeus. Os mercados obrigacionistas estão preocupados com a capacidade de Espanha, Irlanda e Portugal reembolsarem as suas dívidas, obrigando estes países a aumentar os impostos e a cortar na despesa, mesmo encontrando-se atolados na recessão.

Os problemas na Europa têm dado aos investidores razões de sobra para preocupações, mas não são, no entanto, a única causa de ansiedade. As alterações de políticas a nível mundial também assustaram os investidores. O Governo chinês começou a refrear no mês passado a concessão de financiamentos, preocupado com a inflação crescente e as 'bolhas' de activos. O banco central da Índia aumentou os requisitos de reservas e o incentivo fiscal no Brasil está a ser retirado de forma faseada. Os grandes bancos centrais a nível mundial liquidam gradualmente as facilidades de liquidez de emergência que introduziram no pico da crise. O 'alívio quantitativo', o processo de imprimir moeda para comprar títulos com maturidades mais longas, está a chegar ao fim - ou, pelo menos, está a ser suspenso temporariamente.

Todas estas circunstâncias atingiram os preços dos activos. Os mercados accionistas caíram acentuadamente, os preços das matérias-primas diminuíram drasticamente e a volatilidade subiu. O índice MSCI World dos preços globais das acções caiu em quase 10%, a partir do seu ponto alto do dia 14 de Janeiro. O optimismo relativamente a uma recuperação em forma de V está a ser substituído por um pessimismo quanto a uma recessão com uma recaída (double-dip), crescendo o receio de os decisores políticos serem obrigados ou escolherem por engano eliminar os apoios monetários e fiscais precocemente.

A Acrópole já?

Três factores determinarão se estes receios são justificados. O primeiro é a força da recuperação - se é auto-sustentável ou se ainda se apoia em incentivos do Governo. O segundo é a proporção dos problemas da dívida soberana - se a Grécia constitui um problema isolado em termos da má situação financeira ou se os investidores perdem confiança noutros governos seriamente endividados. O terceiro é a destreza com que os bancos centrais e os ministros das Finanças a nível mundial concebem e coordenam o cancelamento dos incentivos políticos.

O quadro sobre o crescimento global está cada vez mais dividido. As grandes economias emergentes estão em melhor estado, com um forte crescimento da procura interna e pouca capacidade produtiva de sobra. Países como a Índia e o Brasil já puseram a depressão para trás das costas. Considerando a escala da sua concessão de financiamentos estatais, a economia da China está vulnerável a um aperto repentino por parte dos burocratas. Mas apesar de todas as preocupações dos mercados, há poucos indícios de que aperte demasiado e muito rapidamente. É possível um abrandamento, é mesmo desejável, mas um deslize grave parece ser pouco provável.

O mesmo não se aplica ao mundo rico, onde há ainda poucos indícios de um forte crescimento da procura privada. Os últimos valores do PIB norte-americano, ainda que optimistas, são enganadores. O produto aumentou a uma taxa anualizada de 5,7% no último trimestre de 2009, principalmente porque as empresas estavam a recompor as suas existências. Com a economia ainda a dispensar empregos (embora a uma taxa inferior), os preços das acções a caírem, o mercado imobiliário ainda vacilante e a dívida das famílias a encolher, é provável que as despesas correntes permaneçam paradas. Nem será provável que as firmas, com tanta capacidade desaproveitada, embarquem em investimentos. Na Europa e no Japão a situação é bem mais negra. Embora as exportações se encontrem em vias de recuperação, o Japão voltou a cair na deflação. Na zona euro, a recuperação já vacilava muito antes da crise grega rebentar e a procura interna estagnou, mesmo em países como a Alemanha, onde as famílias não têm dívidas para pagar.

Em busca de uma saída

Esta disparidade entre o mundo rico e o mundo emergente deve reflectir-se nas suas políticas macroeconómicas. As economias emergentes podem, e devem, largar os seus incentivos e subir as taxas de juro antes que a inflação arranque. Mas nas grandes, fracas e ricas economias é ainda cedo para apertar. Os perigos de repetição dos erros cometidos nos Estados Unidos em 1937 e no Japão em 1997 - quando aumentos prematuros dos impostos e uma política monetária mais apertada empurraram as frágeis economias novamente para a recessão - são maiores do que os riscos de inacção. Com o produto tão abaixo do potencial e o crescimento do crédito estagnado, há poucas hipóteses para uma inflação sustentada. Na maior parte dos países, nem o medo dos investidores em dívida pública deve levar a uma repentina austeridade orçamental. A lição a retirar das angústias da Grécia, Espanha e Portugal não é de que todos os défices são actualmente perigosos, mas que os governos devem fazer mais para controlar os seus défices e impulsionar o crescimento económico a médio prazo, de forma a criar espaço para algum alívio hoje.

A maior parte das economias grandes e ricas absorveram metade desta mensagem. Na sua reunião do dia 6 de Fevereiro, os ministros das Finanças do G-7 concluíram, acertadamente, que é demasiado cedo para começar a retirar incentivos. Mas nenhum país rico apresentou um plano orçamental credível a médio prazo. No topo da lista devem estar as reformas, como, por exemplo, o aumento da idade da reforma ou os benefícios futuros para carência de recursos, que melhoram as perspectivas fiscais dos países sem encrespar a procura actual. A França inclina-se na direcção certa, com a sua proposta de revisão do sistema de pensões, mas o novo Orçamento dos Estados Unidos, que apontava simplesmente para o médio prazo, foi uma falha chocante nesse aspecto. Igualmente importante é uma agenda mais explícita para incentivar o crescimento a médio prazo. Para minimizar o risco de caírem numa situação confusa ao estilo japonês de uma elevada dívida pública e um crescimento lento, as economias do mundo rico devem estimular a produtividade, encorajar o investimento e fomentar a concorrência, o que aponta para um novo centro fulcral direccionado para o comércio livre, o corte da despesa em vez do aumento dos impostos e o acordo quanto a uma nova regulação financeira. Parte da tensão actual provém do 'risco das políticas'. Ninguém - nem as empresas, nem os bancos, nem as pessoas - tem bem a certeza para onde se dirige a política governamental. Quanto mais os governos puderem fazer para reduzir essa incerteza, mais forte será provavelmente a recuperação.



3 comentários:

  1. É um verdadeiro dilema:
    1º) Continuar os estimulos orçamentais e monetários com custos pesados, mas com fortes benefícios potenciais para a retoma? Até quanto deve continuar a ser gasto?
    2º) Estes gastos vão afastar investidores no médio prazo que estarão à espera de um aumento tributário. Ou seja desaceleramos.

    Coloca-se aqui uma questão importantíssima:
    A crise é a doença, os estímulos são a cura. A maleita é forte e não está a reagir da forma ideal ao remédio. Parar de administrar o remédio pode deitar tudo a perder, mas continuar a administrá-lo pode matar também!
    A economia portuguesa mais do que da doença pode morrer da cura...

    Qual é o ponto de equilíbrio numa situação destas?

    a minha primeira sugestão passaria por não retirar estímulos, o risco de uma recaída iria-nos atirar para o fosso, com um desemprego a bater os 15% ou 20%. O problema social decorrente de uma situação destas iria ser inultrapassável.

    Eu defendo a continuação do endividamento!!!

    Como é óbvio, tudo terá de ser pago, e só quando o desemprego começasse a dar tréguas é que começaria a redução da despesa pública, por oposição ao aumento da carga de impostos. (Aumento da idade da reforma e redução do quadro de pessoal progressivamente, congelando entradas na função pública e substituindo os actuais por reformados preferencialmente por quadros jovens e produtivos, 2 por 1)
    A carga tributária iria ser ajustada de forma a reduzir benefícios fiscais apenas nos sectores mais folgados pela crise. Jamais retirar os benefícios fiscais a sectores com vocação exportadora.

    Tudo terá de ser repensado na Europa, pois o tão bonito modelo social e Estado Providência não é mais sustentável dada a realidade mundial. É preciso de uma forma progressiva partilhá-lo com os provados e rumar na direcção da almofada orçamental para fazer face a riscos como o que corremos hoje... Temos de pôr fim à moda dos défices orçamentais, que são tão bonitos eleitoralmente, mas que nos destroem em situações de aflição.

    ResponderEliminar
  2. o problema maior aqui reside essencialmente no défice.

    1-aumentar o défice, promovendo a economia, mas aumentando o preço a pagar dos titulos de divida publica?

    2-reduzir o défice,criando um novo clima de recessão,mas deixando os mercados flutarem livremente?

    o ponto 1, é o caminho seguido e o defendido pelo estado, embora este tenha assumido um compromisso da UE para reduzir o défice.

    contudo, Portugal tem um grande problema, a presença do estado na economia já é enorme, correndo assim o risco de criar um situação de crowding out caso o estado ainda intervenha mais.

    um outro problema que se está a verificar, é que mesmo apesar do estado apoiar a economia cada vez mais numa tentativa de diminuir o desemprego,devido ao aumento do juro dos titulos de divida publica, este não apra de aumentar, pois os especuladores e investidores, perdem a confiança, criando assim um ciclo vicioso, que levará a ainda mais aumentos dos juros dos titulos de Divida publica.


    já o ponto 2, é potencialmente problemático, pois a economia tenderá a entrar numa espiral descendente.

    a situação que se procura então é a de aumentar os gastos publicos mas reduzindo o défice publico simultaneamente, logo aumentando o lado das receitas do estado, mas sem ser por aumento directo dos impostos que tao prejudicais são à economia.

    li uma noticia deveras intressante sobre a evasão fiscal e a existencias de paraisos fiscais, vulgo offshore's.

    ao que parece, as empresas utilizam as offshore's para evitar o pagamento de grandes IRC's, transeferindo os fundos para contas nesses paraiso fiscais, e como tal, não abrangidas pela máquina fiscal, reduzindo deste modo os seus lucros registados nacionalmente( e por consequente a menos receita para o estado).

    numa defenição dada nessa noticia aos impostos, era que estes eram o chamado "preço pela existencia de civilização", ora se se utiliza stock de capital do país,para o país,para residentes na economia do país, então ao transeferir para paraisos fiscais os seus lucros, e consequente "preço de utilização pela existencia de civilização", não são efectivamente pagos, o que equivale a ir comer ao restaurante, e em vez de pagar transferir para uma conta da mesma pessoa, causando assim prejuizo ao restaurante que lhe deu de comer.


    felizmente uma passo foi dado pelo G7, ao obrigar estes paraisos fiscais a assinar uma "carta branca", onde,

    estas alterações só terão efeito nas próximas revisoes constitucionais, e a penalização se se incorrer em incumprimentos será a negação de créditos e apoios institucionais a estes paises, catapultando-os para uma crise interna.


    no fundo, o que pretendo transmitir, é que um bom método para resolver este problema é uma maior aposta no combate à evasão fiscal.

    (em caso de dúvida consultar a revista Visão da semana de 18 de Fevereiro a 24 de Fevereiro, onde se debate também o peso e o valor bruto anual destas evasões fiscais na economia mundial)

    ResponderEliminar
  3. Numa situação de recessão como esta, em que as empresas têm capacidade de produção subaproveitada, onde só parte dos trabalhadores têm efectivamente trabalho, não me parece que os gastos do estado tenham efeitos de crowding out.
    Estas despesas mais que isso, potenciam a formação e educação dos trabalhadores, para melhor se adaptarem a uma nova potencial situação de emprego.

    ResponderEliminar